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Paulo Silva de Pombal #1 – O botão-modo-combatente

Cruzei-me com o senhor João Mateus no supermercado. Tem cerca de setenta anos, anda de postura bem erguida e exerce serviços pontuais de vendedor. Mantém-se bem activo, usando quase sempre gravata e gel (talvez brilhantina), no cabelo. Tem um aprumo digno de registo. É viúvo e passou por um processo de falência na fase final de idade “activa”. Tem filhos, muito bem sucedidos, acima da média dos padrões da actualidade, mas uma delas, de 40 anos está “perdida”, segundo as suas palavras.
A droga destruiu-a como ser humano. Isto sei eu de outras conversas que fomos tendo ao longo de vários anos, desde que conheço este colega vendedor de postura sempre amável e elegante.
Perguntei-lhe como estava ele e como estava ela. Com o sorriso habitual e sincero, respondeu-me o costume “… está mal. Tenho de ser eu a governá-la, pobre coitada. Não é capaz de fazer nada a não ser viver agarrada ao computador…”.
Olhei-o nos olhos e ele percebeu que senti um pouco a situação por ele e que mentalmente lamentava, enquanto tentava esforçadamente encontrar algo de valor para retorquir. Ele percebeu, como percebe um especialista em contacto humano de tantos anos e antes de eu falar, logo disse “… mas eu fui combatente senhor Paulo e nada me põe abaixo, sabe?… Temos que ser duros!…”
Concordei vivamente e desviei então a conversa para o nosso passado “comum” de militares graduados (motivo de outras conversas anteriores), tentando que este momento curto, fosse verdadeiramente rico e não uma futilidade costumeira do “olá como está?” e de nem a resposta ouvirmos por vezes…….. Brilharam-lhe os olhos, quando foi buscar ao seu arquivo mental as respostas a uma ou duas simples perguntas que lhe fiz sobre o tema. Sabíamos que não iríamos prolongar-nos muito nesta conversa de corredor de supermercado, ambos estávamos com pressa.
O dia não estava a ser bom para mim, todos temos dias que não são bons para nós, mas quando me separei do senhor João, ainda sentia o impacto daquele breve momento antagonista, em que um homem se lamenta, mas que reverte a situação, com uma frase que lhe sai instantaneamente, como se tivesse carregado num botão e ela estivesse ali à espera para disparar e transformar o estado mental dos interlocutores. Com aquela expressão, num salto quântico, passei de estar preocupado para estar impressionado e ele, saltou do subtil e natural desabafo humano, para a prontidão do Furriel de cavalaria, preparado para mais uma operação militar. Agarrado ao carrinho de compras, trazia comigo aquele instante. Analisava aquele mecanismo de mudança automático que o Furriel Mateus usará hoje em dia para sair destas emboscadas mentais, tal como o usava em situações de combate no ultramar. “Aquilo é de certeza um “botão” em que carrega… pensava eu livremente…”. Nisto sinto um leve toque de chamada nas costas, virei-me e ouço com a habitual gentileza, “Senhor Paulo, desculpe… Queira ver…” e mostrou-me aquilo que provavelmente é a versão física do tal mágico-botão-interruptor que reverte num instante, agonias, em coragem combatente. Observei com atenção e vi algo que parecia “antigo” e que fora trazido à modernidade, digitalmente. Se esta teoria do botão do modo-combatente é próxima de ser certa, ali estava o seu formato…. E observei com atenção … era uma foto no “smartphone”. Era o Furriel Mateus de Cavalaria nos anos sessenta, no ultramar, vestido de camuflado. O fotografado tinha em comum com quem mostrava orgulhosamente a imagem, um sorriso franco e forte. Se dúvidas tinha até ali, ficaram esclarecidas com este acto. Este homem aprendeu a ligar o botão, nestas situações emocionalmente frágeis. Provavelmente ninguém lhe ensinou tal. Foi a vida e a experiência que lhe deram tais habilidades e aquela foto e as suas memórias de combatente sobrevivente são o gatilho mental que o salva.
Uns meses depois recordei este momento e tinha que o registar. Pois os dias que não são bons, acontecem de vez em quando e necessitamos todos de ter o discernimento e capacidade de termos um botão modo-combatente para carregar e reverter instantaneamente o estado mental e físico que nos afecta. Todos já teremos conseguido num acto de coragem, com um salto, mudar o rumo da situação. Usando o exemplo do senhor João (Furriel Mateus) que tenhamos sempre à mão e à mente, o acesso pronto ao botão-modo-combatente.

Paulo Silva de Pombal OV – Assoc. Portuguesa dos Profissionais de Vendas

Categorias:RUBRICAS, Testemunhos

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